15 outubro 2017

DIA DO PROFESSOR

Dia dos Professores

No dia 15 de outubro, comemora-se em todo o Brasil o Dia do Professor. Nessa ocasião, costuma-se fazer homenagens e reconhecer o trabalho desses profissionais que atuam praticamente no anonimato, mas que possuem um papel fundamental na educação, na formação e na capacitação de pessoas e profissionais de todo o país. A data também é utilizada para manifestações por melhores condições de trabalho.

Origem e evolução

Em 1933, a Associação dos Professores Católicos do Distrito Federal (APC-DF) comemorou por conta própria o Dia do Primeiro Mestre. A iniciativa dentro de um contexto católico acabou dando origem ao Dia do Professor. A data escolhida foi uma referência à primeira lei sobre o ensino primário, de 15 de outubro de 1827, que criou as escolas de primeiras letras (hoje ensino fundamental). Esse decreto, assinado pelo Imperador Pedro I, foi marcado pela aliança entre Estado e Igreja, e estabeleceu que “todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras”. Além disso, o texto oficial abordava a descentralização do ensino, as matérias básicas, o salário e a forma de contração dos professores. Na época, ficou definido que os meninos aprenderiam a ler, escrever, calcular, inclusive com algumas noções de geometria; as meninas aprenderiam as prendas, como costurar, cozinhar, bordar.
Com o passar do tempo, diversas entidades e as diferentes esferas do poder público procuraram atribuir à celebração um caráter diferente. A partir do momento em que a ocasião tornou-se uma prática anual, a data colocou em evidência a divergência entre as gratificações simbólicas ao professor e seus vencimentos pelo desempenho de seu papel. Dessa forma, a iniciativa de 1933 acabou ganhando contornos de manifestação contra os baixos salários e as reais condições do exercício do magistério. O processo assumiu diferentes formas nos diversos estados brasileiros.
Em 1947, representantes do magistério paulista organizaram um movimento em prol da oficialização da data. Em 1948, o governador Adhemar de Barros declarou o dia 15 de outubro como “Dia do Professor”, feriado escolar. As comemorações em São Paulo por parte do estado oscilavam entre homenagens e esquecimentos da data.
Entre os cariocas, o Dia do Professor desempenhou um papel de destaque nos embates entre os Sindicatos dos Professores, os proprietários de colégios particulares e o poder público. De um lado, havia uma discrepância entre o que se pagava aos colégios e o número de horas recebidas pelos professores. De outro, diretores de colégios particulares e representantes do poder público ameaçavam obrigar os professores a trabalhar no dia do feriado, numa forma de hostilizar suas reivindicações por melhores salários. Tal ação só foi impedida por porque o presidente da época, João Goulart, declarou o Dia do Professor feriado escolar em todo o Brasil.
Além disso, no final dos anos 50, ao constatarem que não houve melhorias na remuneração desde suas manifestações da década de 40, as entidades representantes do magistério passaram a utilizar a data para expressar seu descontentamento. A ausência nas cerimônias oficiais passou a ser, inclusive, uma forma de manifestação. Até que, em 1963, em São Paulo, houve a primeira greve geral de professores exatamente no Dia do Professor.
Assim, surgiu uma disputa entre o estado e os representantes do magistério no que se refere à apropriação da data e à construção da imagem do professor.
_________________________________________________

15 maio 2017

O PLANETA DOS MACRÓBIOS

Por
Francisco José Soares Torres
Médico - Crateús - CE










"Para consolo geral, todo moço, de hoje ou de ontem, é sempre um velho em potencial". Foi assim que nos denominou a todos, tanto moços como velhos - se tivéssemos a ventura ou mesmo a desventura de sobrevivermos - aquele para sempre torturado poeta, ainda na pele do jovem Alberto Caeiro ou já no couro do velho Fernando Pessoa, ao lembrar que ninguém escapa ao envelhecimento e à morte, bem como no dizer do antigo grego de Os Trabalhos e os Dias: "nenhum homem pode furtar-se à lei do trabalho, assim como nenhuma raça pode evitar a lei justiça", assim como ninguém também pôde até hoje reproduzir as proezas amorosas do lendário Dr Fausto impunemente, pois até ele perdera, para sempre, a própria alma vendendo-a ao Demônio, e nem mesmo o autor, o anoso Goethe conseguiu ser amado como pretendia pela jovem Ulrik de dezoito anos, permitindo-nos concordar com o amargurado poeta lusitano em que, afinal, não passamos, em qualquer instância, de meros "cadáveres adiados".

Depois de largo prazo ultramarino o maranhense de São Luis, Aluísio Azevedo antecipara na obra O Cortiço como viriam a se tornar as relações de vizinhança das grandes metrópoles mundiais denunciando os tipos de moradia nos edifícios de habitação coletiva de baixo padrão dos dias de hoje, as convivências sociais claramente neutras ou, pior ainda, fortemente hostis e adversas ao bom convívio social encontradas nesses aglomerados urbanos onde, principalmente os idosos, são literalmente "descartados" do convívio, ao contrário do que, com certeza, ocorria em algumas remotas civilizações orientais onde as condições de vida em geral não favoreciam a longevidade, como entre os chineses e os hebreus por exemplo, e nessas pequenas e isoladas populações os velhos ocupavam posição de destaque dentro das famílias sendo tratados por todos com veneração e respeito.

Mas o que poderia ter deslocado o eixo da questão "desalavancando" a gangorra, desde a Antiguidade onde a expectativa de vida não ultrapassava os dezoito anos, passando pela Idade Média e Renascença para atingir os vinte e cinco anos de esperança de vida, até a Modernidade a ponto de Carlos V ser conhecido como "o velho sábio" com apenas quarenta e dois anos de idade e chegar ao século XIX com a estimativa de vida dando uma guinada ascendente, época em que já se contava com cerca de 12% de sexagenários para finalmente, no século XX alguns países a partir dos anos sessenta, liderarem o "ranking" mundial de octogenários"?

O grande avanço nas melhorias das condições de existência da humanidade especialmente devido aos progressos da medicina do século XXI permitiu a eclosão do chamado "milagre da ancianidade" podendo já se profetizar o porvir de um mundo povoado por "macróbios" o que nos levaria inevitavelmente a assistir um estranho espetáculo se não surgissem verdadeiras revoluções estéticas de gosto exótico nas futuras gerações no tocante à aceitação sem repulsa, por parte dos jovens, em relação à população vegetativa, evitando que dentro de um tempo não muito longevo o envelhecimento dos habitantes da Terra levasse ao desaparecimento gradativo dessa população até a lenta, porem inexorável extinção de velhos no planeta.

Antes que isso pudesse acontecer, essa população de desvalidos dos meios de garantia da própria subsistência faria parte de um grupo abandonado e desamparado, condenado a passar os últimos anos de sua vida em estado de completa miséria e perfeita solidão, pois já se iniciam as longas e custosas viagens espaciais, quando o homem tentará ocupar outro planeta em qualquer recanto do sistema solar ou outro canto ignorado do espaço sideral onde constituirá uma "nova humanidade" e aqui deixará, para apodrecer, se lhe aprouver e sem hesitações, as gemas estragadas postas por sua galinha dos ovos "goros", balizando-se em novíssimos preceitos de coexistência social para a preservação do Novo Homem no Cosmo, ou possa ser que simplesmente esses supercivilizados homens do futuro recomessem, imitando antigos nativos das Ilhas Fiji, a comer os velhos, em suas longas viagens pelo espaço.


Mas que importa viver algumas centenas de anos com o corpo carcomido e devastado por fadigas e desgastes, se não se puder protrair e dilatar a juventude, ao invés de simplesmente prolongar a longevidade? O mais provável é que a Terra dos Velhos venha a ser povoada e governada por uma "gerontocracia" retrógrada e resistente à tecnologia do futuro, presa aos preconceitos do passado, e que o seu planeta, envenenado por gases tóxicos, acabe por se transformar em uma rocha inerte, um astro sem vida, um planeta morto girando eternamente no espaço frio do universo, asfixiado por derivados do carbono exalados de suas velhas e poluentes fábricas, definitivamente esmagado pela incapacidade de governo de sue líderes políticos, pondo em poderosa dúvida os modelos de longevidade antigos da sábia sabedoria dos profetas do Velho Testamento, três dos quais viveram respectivamente cento e vinte, cento e trinta e sete e cento e setenta e cinco anos!
______________________________________

Francisco José Soares Torres 

22 fevereiro 2017

O chumbinho e o beija-flor















Aos 13 anos de idade meu pai fez a loucura de presentear, a mim e ao Ivan Galvão, com duas carabinas de chumbo. A minha era uma Rossi. A dele, não lembro a marca. Como o pai tinha conta no armazém (e no armazém vendiam caixinhas cheias de chumbo) nos tornamos exímios atiradores.  Às custa de centenas de pardais que, naquela época, ensinavam, era uma praga vinda nas caravelas portuguesas. Se adaptaram ao Brasil, tomaram conta das cidades e empurraram os demais passarinhos da terra para o campo. Eram, portanto, uma praga.

Pois diga isso a dois moleques pré-adolescentes, com duas carabinas de chumbo na mão, e imagine você o estrago que eles vão fazer. Matei tanto pardal e fiquei tão craque na espingarda, que certo dia resolvi tirar uma fininha de um beija-flor, que sugava néctar de uma flor de mamoeiro. Mirei um pouco atrás dele e me lembro que pensei: "Sou como um deus. Posso decidir se esse beija flor poderá viver ou morrer".

E apertei o gatilho para o chumbo só tirar uma fininha dele. "O chumbo assobia no ar e dá um susto no passarinho, que fica procurando de onde veio o assobio que passou perto da orelha  dele" - pensei.

Essa era a intenção, já que eu só matava pardais. O que eu não sabia era que -beija-flor voa para trás e no momento do tiro ele se deslocou rápido. O chumbo o atingiu em cheio. O bichinho caiu fulminado, na hora. Pulei o muro (o mamoeiro ficava no quintal do vizinho) e fui buscar o beija-flor. Olhei aquelas peninhas azuis esverdeadas e prateadas. O biquinho longo. A delicadeza do corpinho minúsculo. A perfeição da Natureza nele. Entenda como quiser, acredite se quiser, quase que "ouvi" um pensamento forte, muito forte, soar dentro do meu crânio: "Pois quero ver se você é Deus agora para dar vida novamente à esse bichinho tão delicado que você acaba de matar". 

A dor do arrependimento foi enorme, meu coração parece que se contraiu por dentro. Senti como nunca o ato que fizera. Embrulhei o beija-flor num paninho, fiz uma cova no canteiro de casa e o sepultei ali. Peguei a espingarda, joguei fora a caixinha de chumbo e guardei a arma no fundo do guarda-roupa de meu pai e disse para mim mesmo: "NUNCA MAIS! Você tem o poder de tirar uma vida. Mas não pode fazê-la voltar". 


Meus pais se mudaram, a espingarda sumiu. Nunca mais a vi. A dor desse arrependimento eu nunca mais esqueci. Aí, meses atrás, andei vendo uma carabina para comprar. Puxa, eu tinha sido tão craque com uma dessas. Será que conseguiria acertar os mesmos tiros tão precisos como antigamente? Mas me lembrei do beija-flor. Saí da loja. Nunca mais, pensei de novo. Nunca mais. Mas achei uma ideia muito boa: trocar o chumbinho por uns feijões. Vou pensar nesse caso. Bom... a história é essa e infelizmente é verídica.
______________________________________________________________

Por: Leonidas Galvão Avellar Pires
Bancário e Jornalista - UBATUBA - SP



03 fevereiro 2017

Amizade - simples assim














Minha menina é admirável. Tenho nela o prêmio de sabê-la menos a garota que fui e mais a que queria ter sido.
Volta e meia às voltas com envoltas questões relativas à amizade, traz ares de conciliadora. Crê no diálogo como dissolução de mazelas.
Não sei de onde tirou essa ideia!!!
Brincadeiras à parte, outro dia eu fiz a ela o lendário discurso: a amizade é um “tipo” de amor.
– “Tipo” assim bem ciumento, né, mãe?!
Alguém discorda?
Tenho por história minha pra contar que cresci com uma amiga que gostava de falar: “nas brincadeiras é que se diz as maiores verdades.”.
            É bem verdade que, agora, a essa altura da vida, eu lhe pediria que conceituasse “verdade”...
            Todo mundo tem amigos. Não entrando igualmente no conceito de “amizade”, o que estou tentando dizer, tomo-o emprestado de Mario Quintana: “Não te abras com teu amigo/ Que ele um outro amigo tem/ E o amigo do teu amigo/ Possui amigos também”.
            Após podas e colheitas, umas tão frutíferas quanto as outras, penso que os amigos não o são nem se fazem por merecer pelo tanto de verdade que nos digam.
            Poder-se-ia dizer aqui que o importante, na verdade, sobre a verdade, é a verdade em que ela se funda... ou no quanto de prática a bela teoria em que ela se funda venha a existir. Mas, não estou aqui para, por minha vez, fundar meu discurso em pseudomoralismos.
            Amigos simplesmente acontecem. Desperdiça-se demasiado e raro tempo – que não voltará – tentando explicar o verdadeiramente inexplicável.
            No meu íntimo, sei que quando falo a esse respeito são duas ou três pessoas que me surgem à mente.
Se, por um lado, isso soa um tanto quanto solitário, por outro, a mim particularmente, comprova “tipo” que meio que entendi o significado da “coisa”. Meio.
            E tudo bem que “meio não é inteiro”, como “noventa e nove não é cem”, do jeito que ouço, brincando, dizerem por aí. Tudo bem, afinal, já é um baita começo!
Da mesma forma que “uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”, do jeitinho que meu irmão, brincando, gosta de sempre dizer. Tudo bem – de verdade – pois, realmente: embora uma coisa se transforme, ainda que siga sendo uma coisa, será outra coisa, pois, será a coisa outra transformada! Simples assim.


Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br

            

29 janeiro 2017

Um futuro além da imaginação


Abrindo mão das atividades que agregam valor ao petróleo e abandonando a produção de energia verde, a Petrobras que restar não terá a mínima chance de sobrevivência futura
Por Eugenio Miguel Mancini Scheleder

Em 1998, a Kodak tinha 170 mil funcionários e vendia 85% do papel fotográfico utilizado no mundo. Em apenas 3 anos, o seu modelo de negócio foi extinto e a empresa desapareceu.

O mesmo acontecerá com muitos negócios e indústrias nos próximos 10 anos e a maioria das pessoas nem vai se aperceber disso. As mudanças serão causadas pelo surgimento de novas tecnologias.

Conforme exposto na Singularity University Germany Summit, em abril deste ano, o futuro nos reserva surpresas além da imaginação.

A taxa de inovação é cada vez mais acelerada e as futuras transformações serão muito mais rápidas que as ocorridas no passado. Novos softwares vão impactar a maioria dos negócios e nenhuma área de atividade estará a salvo das mudanças que virão.

Algumas delas já estão acontecendo e sinalizam o que teremos pela frente. O UBER é apenas uma ferramenta de software e não possui um carro sequer, no entanto, constitui hoje a maior empresa de táxis do mundo. A Airbnb é o maior grupo hoteleiro do planeta, sem deter a propriedade de uma única unidade de hospedagem.

Nos EUA, jovens advogados não conseguem emprego. A plataforma tecnológica IBM Watson oferece aconselhamento jurídico básico em poucos segundos, com precisão maior que a obtida por profissionais da área.

Haverá 90% menos advogados no futuro e apenas os especialistas sobreviverão. Watson também orienta diagnósticos de câncer, com eficiência maior que a de enfermeiros humanos.

Em 10 anos, a impressora 3D de menor custo reduziu o preço de US$18.000 para US$400 e tornou-se 100 vezes mais rápida. Todas as grandes empresas de calçados já começaram a imprimir sapatos em 3D.

Até 2027, 10% de tudo o que for produzido será impresso em 3D. Nos próximos 20 anos, 70% dos empregos atuais vão desaparecer.

Em 2018, os primeiros carros autônomos estarão no mercado. Por volta de 2020, a indústria automobilística começará a ser desmobilizada porque as pessoas não necessitarão mais de carros próprios. Um aplicativo fará um veículo sem motorista busca-lo onde você estiver para leva-lo ao seu destino. Você não precisará estacionar, pagará apenas pela distância percorrida e poderá fazer outras tarefas durante o deslocamento.

As cidades serão muito diferentes, com 90% menos carros, e os estacionamentos serão transformados em parques. O mercado imobiliário também será afetado, pois, se as pessoas puderem trabalhar enquanto se deslocam, será possível viver em bairros mais distantes, melhores e mais baratos.

O número de acidentes será reduzido de 1/100 mil km para 1/10 milhões de km, salvando um milhão de vidas por ano, em todo o mundo. Com o prêmio 100 vezes menor, o negócio de seguro de carro será varrido do mercado.

Os fabricantes que insistirem na produção convencional de automóveis irão à falência, enquanto as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) estarão construindo computadores sobre rodas. Os carros elétricos vão dominar o mercado na próxima década.

A eletricidade vai se tornar incrivelmente barata e limpa. O preço da energia solar vai cair tanto que as empresas de carvão começarão a abandonar o mercado ao longo dos próximos 10 anos. No ano passado, o mundo já instalou mais energia solar do que à base de combustíveis fósseis. Com energia elétrica a baixo custo, a dessalinização tornará possível a obtenção de água abundante e barata.                      

No contexto deste futuro imaginário, os veículos serão movidos por eletricidade e a energia elétrica será produzida a partir de fontes não fósseis. A demanda por petróleo e gás natural cairá dramaticamente e será direcionada para fertilizantes, fármacos e produtos petroquímicos. Os países do Golfo serão os únicos fornecedores de petróleo no mercado mundial. Neste cenário ameaçador, as empresas de O&G que não se verticalizarem simplesmente desaparecerão.

No Brasil, o modelo de negócio desenhado para a Petrobras caminha no sentido oposto. Abrindo mão das atividades que agregam valor ao petróleo e abandonando a produção de energia verde, a Petrobras que restar não terá a mínima chance de sobrevivência futura. A conferir.
_____________________________________________________
(Publicado na revista Brasil e Energia Petróleo e Gás, edição de dez/2016).
Reflita sobre o seu presente e o seu futuro. Está preparado para mudanças tão radicais e abruptas?

"Nada é permanente, exceto a mudança". (Heráclito: 535 a.C - 475 a.C)

22 março 2016

Entre escombros... entre escolhas

ENTRE ESCOMBROS... ENTRE ESCOLHAS
Por: Alessandra Leles Rocha



Terrorismo - sm. Modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror. (Aurélio - Dicionário da Língua Portuguesa)

Lamentavelmente, acordamos com a notícia de mais um terrível atentado terrorista na Europa, dessa vez em Bruxelas, na Bélgica. Segundo a Agência de Imprensa France-Presse (AFP), “Pelo menos 34 pessoas morreram e mais de 150 ficaram feridas nas explosões que ocorreram nesta terça-feira no aeroporto de Zaventem, em Bruxelas, e na estação de metrô de Maalbeek, no centro da capital europeia”. Mas, apesar da comoção que as imagens e notícias nos causam é fundamental refletir seriamente sobre o que se esconde nas sombras do radicalismo intolerante disseminado pelo mundo.

De acordo com as palavras do filósofo e teórico político Jean-Jacques Rousseau, “Se a razão que faz o homem é o sentimento que o conduz”. Partindo dessa lógica, me parece muito difícil, então, crer que tamanha crueldade parta somente de fundamentos ideológicos arraigados e distorcidos. É preciso que tais doutrinas encontrem abrigo e amparo nas emoções e sentimentos humanos, de modo que haja uma frieza plena para não se envolver e, nem tampouco, pensar nos milhões de passantes ao redor. Não, não há ideias suficientemente grandiosas que sejam, em sã consciência, capazes de preterir a vida e o bem estar dos seres humanos; a não ser que, tudo isso, nos parecesse de fato sem a menor a importância.

Por excelência os viventes do planeta desenvolveram, cada um a sua forma, o seu instinto de sobrevivência para garantir a manutenção das espécies. Sendo assim, quando nos deparamos com o movimento contrário a esse princípio entre os humanos, nos deparamos com um fenômeno em que a exceção passa a se tornar regra e eleva os riscos em relação ao nosso futuro. A vida tem sido relegada mais e mais as últimas instâncias de prioridade, entre o TER e o SER, o primeiro é o que deve ser preservado; muito embora, o que vale o TER se não há o SER para desfrutá-lo? Entretanto, apesar disso, revire as páginas da história e veja quantos foram os que sucumbiram aos ditames do TER, as honras e as glórias do ouro e do poder.

Talvez a explicação desse comportamento esteja pautada em uma dose generosa de egoísmo a corroer a humanidade.  Deixamo-nos levar pelas palavras, pelos ídolos, porque nos é conveniente pensar sob uma ótica individual dos interesses, daquilo que se pode lucrar, mesmo que eventualmente prejudique o outro. É assim que muitos não conseguem enxergar as mazelas do mundo e se postam a margem, numa bolha de isolamento ideológico altamente resistente, a qual os permite cometer as piores e mais abomináveis atrocidades contra seus pares, sem lamentar ou sentir nenhum sentimento de culpa.

Não se consegue extinguir as diversas faces do terrorismo porque sempre há quem aplauda e reverencie tais práticas. As ideologias de extremo radicalismo exercem um fascínio sobre mentes egoisticamente vulneráveis; por isso, eles mantêm certo equilíbrio na rotatividade de adeptos para suas investidas, não lhes deixando faltar recursos de nenhuma natureza, especialmente, financeiros. Sim, porque as ideologias usam do dinheiro para manterem-se vivas, para persuadir novos seguidores, para apontar uma série de benefícios que só através dele é possível obterem em curto prazo. 

Dizia Martin Luther King que, “A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio”. Por pior que sejam as circunstâncias da vida pós-moderna, algo ela nos tem revelado em concordância com essas palavras: as máscaras estão pelo chão. Sim, o posicionamento das pessoas tem dito muito sobre elas, sobre o grau de envolvimento e sensibilização em relação aos sofrimentos e obstáculos a serem vencidos pela coletividade. Observando com atenção todos aqueles tidos como engajados e atuantes em favor do bem social, quantos realmente se mostram defensores dos fracos, dos oprimidos, dos escravizados? Por quais causas eles realmente militam? Será que estão preocupados com os milhões de desempregados, ou os que concorrem em verdadeira ‘roleta-russa’ por um leito de UTI nos hospitais públicos, ou os que não conseguem estudar pela ausência de transporte, ou... ou...? Será que estão na defesa da liberdade e demais garantias de direitos humanos?

É. Quem vê cara não vê coração e de repente se descobre o real tamanho dessa legião de seres desumanos pelo mundo. Anônimos e famosos que hasteiam suas ideologias com um orgulho feroz. Manifestam suas filosofias de botequim, sem nenhuma cerimônia. E no fim das contas, querem mais é que tudo se exploda bem longe do seu quintal de indiferença e alienação. São os donos da verdade; aliás, como se essa fosse passível de uma única definição. Tudo o que não sai de seus pontos de vista é rechaçado com veemência e desqualificado sem direito a contestação; seja na política, na economia, na religião, ou no futebol.

Portanto, os atos de terrorismo não estão presentes somente na Bélgica, ou na Europa. Eles estão aonde o ser humano está. O terror está no derramamento de sangue; mas, também, na omissão silenciosa. Ele está nas bombas que explodem em locais cotidianos; mas, também, nas palavras verbalizadas ou não dos meios de comunicação. Ele está na idolatria, na ignorância, na incapacidade de dialogar e de reconhecer os próprios erros; afinal, quem foi que disse que o ser humano é perfeito, hein? Temos que parar de relativizar a vida, estabelecendo quem pode viver quem pode morrer quem pode trabalhar quem pode ser feliz, quem... Nenhum fim justifica qualquer meio para alcançá-lo; então, quem escolhe o lado do terror, o escolhe por vontade própria.

_____________________
ALESSANDRA LELES ROCHA
Professora, Bióloga e Escritora
Uberlândia - MG
alessandralelesrocha@hotmail.com

01 fevereiro 2016

A conquista do poder e o valor da vida

A CONQUISTA DO PODER E O VALOR DA VIDA



por: Helmut Adolf  Mataré*
Médico e escritor 

Aspirar ao poder ou querer dominar é a extensão do instinto de auto-conservação.  Isto já se observa no comportamento dos cachorros. Eles não permitem que um cachorro estranho ou um gato seja introduzido no círculo da vida que lhes da subsistência. 

Possuir um poder é um fascínio. Um ditador, frequentemente, luta até a morte, para permanecer na situação de mando. Quais são os métodos, para se chegar ao poder? Numa tribo primitiva pode ser a força braçal ou guerreira que permite a ascensão ao poder.

No século passado foram os japoneses que dominavam grande parte da China com força militar. Após a conquista de uma cidade ou região, eles firmavam-se no poder mediante intimação. Com prisões e matanças  arbitrárias  eles mostravam aos  chineses  que  o poder dos ocupantes era ilimitado.

Nos tempos bíblicos, a atividade religiosa ou profética era a fonte do poder. Crenças alheias às do profeta eram severamente proibidas. “Não deixarás viva a bruxa!” Os antigos  astecas e incas tinham uma lei idêntica: pena de morte para a bruxa.

Na Europa medieval, uma coroação era um ato religioso. E, quem não acreditava  em Deus ou Cristo, foi condenado à morte. Assim, a igreja firmava-se no poder. Isto comprova que na idade média o mais alto valor não era a vida, mas a submissão aos representantes da religião e aos dogmas da igreja. 

O preceito da Bíblia que um homem que mata deve perder sua vida, era razoável, porque se aplicava contra os que agiam por motivo torpe. Hoje, ao contrário, estamos no dilema perante os assassinos sadistas ou terroristas, que vivem nas prisões ou que estão em liberdade, porque eles possuem o mais alto valor que nós conhecemos: a vida humana. 

Numa sociedade democrática é a retórica e a capacidade de hipnotizar as massas  com argumentos atraentes ou lisonjeiros, que leva ao poder. Quando proferidas com impecável pronúncia, estas promessas têm força hipnotizante, notadamente, se visam riqueza, segurança ou glória. 

Trezentos anos atrás, alguns fundadores de religiões novas utilizavam-se de um recurso muito primitivo, mas eficiente para ampliar o círculo de crentes: eles prometiam devassidão sexual. Assim fizeram os anabatistas na Alemanha, no início de sua atividade.

Os políticos costumam apelar a um grande número de emoções. Ora são nobres ideais, ora sentimentos de amor ou compaixão, ora indignação contra injustiças, ora o contrário: a postulação de privilégios com os quais, sorrateiramente,  prometem-se grandes lucros a determinada classe ou agremiação partidária. Ora eles advertem um planejado ou iminente terror, contra o qual advogam ser indispensável uma severa disciplina.

Entre outros métodos de chegar ao poder, destaca-se ainda a incitação à histeria ou à  autopiedade. Os comunistas usaram este método. Também nos tempos atuais há pregadores que afirmam que o Cristo crucificado é o símbolo da classe operária torturada e abusada. Assim, eles colocam-se na vanguarda, se, por acaso, eclodir uma revolta dos operários contra as outras classes.

Na revolução francesa, certos advogados denunciavam o rei de ser um acaparador, o que era mentira. Acusavam-no também de ser um proxeneta, o que, em parte, era verdade. O rei Luiz XVI rebatia estas acusações com grande habilidade, durante três anos, mas, sua defesa minguou, quando foram descobertos os documentos que comprovavam que ele estava conspirando com os austríacos contra a França. 

Também Cristóvão Colombo entendia de demagogia. Sabendo que, em breve,  ocorreria um eclipse da lua, ele aproveitou-se da credulidade e religiosidade dos índios, para fazer-lhes crer que ele estivesse familiarizado com o estado de ânimo do Deus da Lua. Ele atribuía a visível diminuição da luminosidade da lua à tristeza do Deus da Lua, por causa da desobediência dos índios a suas ordens de juntar o ouro para ele. 

Um semelhante ardil foi usado pelos evangelistas. Eles deram a entender que Cristo não teria sido condenado à morte pelos romanos, se os judeus de Jerusalém não tivessem insistido na crucificação. Com esta acusação eles criaram uma consciência de culpa na mente do simples povo de Jerusalém, culpa esta que eles, como arautos de Javé, relacionavam ao merecido castigo. Pois, os judeus foram cruelmente expulsos da Palestina, poucos anos depois do martírio e Gólgata.

Hoje estamos assistindo, no Brasil, a uma estranha distorção de valores morais. A propaganda enfoca a necessidade de combater a violência, como se a violência fosse sempre um crime, e como se os crimes insidiosos não representassem nenhum perigo para a sociedade. Esta distorção é evidentemente uma propaganda preventiva para uma grande parte dos políticos que pertencem ao mundo do crime não violento, chamado corrupção. Seria terrível para eles, se o povo brasileiro hoje reagisse contra a corrupção com  violência, de forma semelhante como fez o povo francês mais de duzentos anos atrás. 

Se estes políticos que se confessam ser irrestritamente a favor da vida, fossem honestos, eles cuidariam em primeiro lugar da eliminação dos grandes criminosos que, mesmo nas prisões, continuam a comandar matanças, terror e intoxicações. Se os políticos amassem o povo, eles seguiriam a Bíblia e mandariam verter o sangue daquele que verteu sangue alheio.

Tudo indica que os maometanos perceberam a hipocrisia que tomou conta do mundo ocidental. Eles iludem-nos, mostrando que eles conhecem um número maior de valores que nós. E com muito orgulho lançam mão de vidas humanas e de suicídios, para cultivar seus ideais.

Temos hoje quatro ideologias no Brasil que restringem o livre fluxo do pensamento sobre a vida humana. A primeira provém do poderoso mundo do crime, que deseja proteger os corruptos. Ela invoca o direito à vida para todos, e a proibição de toda violência. Essa é a orientação de nosso governo. 

A segunda doutrina é aquela que combatia antigamente a escravatura. Ela ressalta a igualdade e o direito à autodeterminação dos homens. Essa ideologia abolicionista, se bem que perdeu em importância, ainda está viva no Brasil e distorce a noção do direito penal e cível.

A terceira pedra de toque é o repúdio gerado pelas notícias de matanças em massa, chamadas genocídios, ocorridos na União Soviética, na Alemanha nazista e na China comunista. Nestes países, os políticos determinavam, se uma vida era útil ou não. A reprovação destas matanças é tão emocionante, que paralisa o raciocínio sobre a pena máxima, sobre a mortalidade infantil e sobre a limitação dos nacituros. A maioria das pessoas que se orgulham de condenar solenemente o holocausto e as limpezas étnicas e políticas, perdem de vista o problema crucial de nosso tempo, que é o aumento da humanidade, que se transformou numa praga de carne viva.

A quarta perturbação do pensamento filosófico provém do incrível avanço da medicina, mormente da medicina social e da popularização da medicina individual, que antigamente era uma arte secreta, e hoje é acessível a todo cidadão. Os políticos  aproveitaram este progresso abalroante, para fazer do tratamento médico um direito, que a constituição e a lei chamam impropriamente: o direito à saúde. 

Verdade é que a lei suprema da profissão médica é a conservação da vida humana. Mas esta ética, própria da classe médica, não pode ser estendida aos três poderes que regem um país. Outros profissionais, por exemplo, um fazendeiro, um cientista, um artista, um capitão de belonave, um astronauta, um explorador, um inventor têm ideais totalmente diferentes, e, evidentemente, os celerados e facínoras também não pensam sobre a vida como um médico. 

Se os poderes públicos adotam cega e estupidamente a ética da classe médica, eles cometem um crime avassalador contra a Mãe Terra e, com isso também contra a país ao qual deveriam dedicar-se.

Pois o globo terrestre que tem treze mil quilômetros de diâmetro, possui vida em terra firme somente até a profundidade de noventa e cinco centímetros, exceto nos desertos. Esta tênue e delicada camada viva deveria ser protegida em primeiro lugar.

A vida da Mãe Terra deveria figurar como valor supremo e como critério principal  de toda jurisdição e ordem pública. Somente assim haveria esperança de evitar-se uma catástrofe total.  
_______________________________
* Helmut Adolf Mataré. Nasceu na Alemanha (Aachen) em 24.12.1917 e faleceu em janeiro de 2016. Estudou medicina (sua especialidade era a radiologia) durante a guerra e participou de diversas campanhas. Foi médico de um batalhão de infantaria na frente contra a União Soviética, época em que ele narrou essa experiência  no livro "A Guerra nos Pântanos". Estudou no Canadá francês, e nos anos 50 veio radicar-se no Brasil, vivendo nas cidades de São Paulo e Bertioga. Foi sócio-fundador da Sobrames-SP (1988), tendo participado na diretoria da entidade em diversas gestões. Autor dos livros "Memórias de um Médico na Segunda Guerra Mundial"  e "A Bíblia tão desconhecida". Foi membro titular da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
** Este texto foi escrito em 1999. 

DIA DO PROFESSOR

Dia dos Professores No dia 15 de outubro, comemora-se em todo o Brasil o Dia do Professor. Nessa ocasião, costuma-se fazer homenagens e...