15 maio 2017

O PLANETA DOS MACRÓBIOS

Por
Francisco José Soares Torres
Médico - Crateús - CE










"Para consolo geral, todo moço, de hoje ou de ontem, é sempre um velho em potencial". Foi assim que nos denominou a todos, tanto moços como velhos - se tivéssemos a ventura ou mesmo a desventura de sobrevivermos - aquele para sempre torturado poeta, ainda na pele do jovem Alberto Caeiro ou já no couro do velho Fernando Pessoa, ao lembrar que ninguém escapa ao envelhecimento e à morte, bem como no dizer do antigo grego de Os Trabalhos e os Dias: "nenhum homem pode furtar-se à lei do trabalho, assim como nenhuma raça pode evitar a lei justiça", assim como ninguém também pôde até hoje reproduzir as proezas amorosas do lendário Dr Fausto impunemente, pois até ele perdera, para sempre, a própria alma vendendo-a ao Demônio, e nem mesmo o autor, o anoso Goethe conseguiu ser amado como pretendia pela jovem Ulrik de dezoito anos, permitindo-nos concordar com o amargurado poeta lusitano em que, afinal, não passamos, em qualquer instância, de meros "cadáveres adiados".

Depois de largo prazo ultramarino o maranhense de São Luis, Aluísio Azevedo antecipara na obra O Cortiço como viriam a se tornar as relações de vizinhança das grandes metrópoles mundiais denunciando os tipos de moradia nos edifícios de habitação coletiva de baixo padrão dos dias de hoje, as convivências sociais claramente neutras ou, pior ainda, fortemente hostis e adversas ao bom convívio social encontradas nesses aglomerados urbanos onde, principalmente os idosos, são literalmente "descartados" do convívio, ao contrário do que, com certeza, ocorria em algumas remotas civilizações orientais onde as condições de vida em geral não favoreciam a longevidade, como entre os chineses e os hebreus por exemplo, e nessas pequenas e isoladas populações os velhos ocupavam posição de destaque dentro das famílias sendo tratados por todos com veneração e respeito.

Mas o que poderia ter deslocado o eixo da questão "desalavancando" a gangorra, desde a Antiguidade onde a expectativa de vida não ultrapassava os dezoito anos, passando pela Idade Média e Renascença para atingir os vinte e cinco anos de esperança de vida, até a Modernidade a ponto de Carlos V ser conhecido como "o velho sábio" com apenas quarenta e dois anos de idade e chegar ao século XIX com a estimativa de vida dando uma guinada ascendente, época em que já se contava com cerca de 12% de sexagenários para finalmente, no século XX alguns países a partir dos anos sessenta, liderarem o "ranking" mundial de octogenários"?

O grande avanço nas melhorias das condições de existência da humanidade especialmente devido aos progressos da medicina do século XXI permitiu a eclosão do chamado "milagre da ancianidade" podendo já se profetizar o porvir de um mundo povoado por "macróbios" o que nos levaria inevitavelmente a assistir um estranho espetáculo se não surgissem verdadeiras revoluções estéticas de gosto exótico nas futuras gerações no tocante à aceitação sem repulsa, por parte dos jovens, em relação à população vegetativa, evitando que dentro de um tempo não muito longevo o envelhecimento dos habitantes da Terra levasse ao desaparecimento gradativo dessa população até a lenta, porem inexorável extinção de velhos no planeta.

Antes que isso pudesse acontecer, essa população de desvalidos dos meios de garantia da própria subsistência faria parte de um grupo abandonado e desamparado, condenado a passar os últimos anos de sua vida em estado de completa miséria e perfeita solidão, pois já se iniciam as longas e custosas viagens espaciais, quando o homem tentará ocupar outro planeta em qualquer recanto do sistema solar ou outro canto ignorado do espaço sideral onde constituirá uma "nova humanidade" e aqui deixará, para apodrecer, se lhe aprouver e sem hesitações, as gemas estragadas postas por sua galinha dos ovos "goros", balizando-se em novíssimos preceitos de coexistência social para a preservação do Novo Homem no Cosmo, ou possa ser que simplesmente esses supercivilizados homens do futuro recomessem, imitando antigos nativos das Ilhas Fiji, a comer os velhos, em suas longas viagens pelo espaço.


Mas que importa viver algumas centenas de anos com o corpo carcomido e devastado por fadigas e desgastes, se não se puder protrair e dilatar a juventude, ao invés de simplesmente prolongar a longevidade? O mais provável é que a Terra dos Velhos venha a ser povoada e governada por uma "gerontocracia" retrógrada e resistente à tecnologia do futuro, presa aos preconceitos do passado, e que o seu planeta, envenenado por gases tóxicos, acabe por se transformar em uma rocha inerte, um astro sem vida, um planeta morto girando eternamente no espaço frio do universo, asfixiado por derivados do carbono exalados de suas velhas e poluentes fábricas, definitivamente esmagado pela incapacidade de governo de sue líderes políticos, pondo em poderosa dúvida os modelos de longevidade antigos da sábia sabedoria dos profetas do Velho Testamento, três dos quais viveram respectivamente cento e vinte, cento e trinta e sete e cento e setenta e cinco anos!
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Francisco José Soares Torres 

22 fevereiro 2017

O chumbinho e o beija-flor















Aos 13 anos de idade meu pai fez a loucura de presentear, a mim e ao Ivan Galvão, com duas carabinas de chumbo. A minha era uma Rossi. A dele, não lembro a marca. Como o pai tinha conta no armazém (e no armazém vendiam caixinhas cheias de chumbo) nos tornamos exímios atiradores.  Às custa de centenas de pardais que, naquela época, ensinavam, era uma praga vinda nas caravelas portuguesas. Se adaptaram ao Brasil, tomaram conta das cidades e empurraram os demais passarinhos da terra para o campo. Eram, portanto, uma praga.

Pois diga isso a dois moleques pré-adolescentes, com duas carabinas de chumbo na mão, e imagine você o estrago que eles vão fazer. Matei tanto pardal e fiquei tão craque na espingarda, que certo dia resolvi tirar uma fininha de um beija-flor, que sugava néctar de uma flor de mamoeiro. Mirei um pouco atrás dele e me lembro que pensei: "Sou como um deus. Posso decidir se esse beija flor poderá viver ou morrer".

E apertei o gatilho para o chumbo só tirar uma fininha dele. "O chumbo assobia no ar e dá um susto no passarinho, que fica procurando de onde veio o assobio que passou perto da orelha  dele" - pensei.

Essa era a intenção, já que eu só matava pardais. O que eu não sabia era que -beija-flor voa para trás e no momento do tiro ele se deslocou rápido. O chumbo o atingiu em cheio. O bichinho caiu fulminado, na hora. Pulei o muro (o mamoeiro ficava no quintal do vizinho) e fui buscar o beija-flor. Olhei aquelas peninhas azuis esverdeadas e prateadas. O biquinho longo. A delicadeza do corpinho minúsculo. A perfeição da Natureza nele. Entenda como quiser, acredite se quiser, quase que "ouvi" um pensamento forte, muito forte, soar dentro do meu crânio: "Pois quero ver se você é Deus agora para dar vida novamente à esse bichinho tão delicado que você acaba de matar". 

A dor do arrependimento foi enorme, meu coração parece que se contraiu por dentro. Senti como nunca o ato que fizera. Embrulhei o beija-flor num paninho, fiz uma cova no canteiro de casa e o sepultei ali. Peguei a espingarda, joguei fora a caixinha de chumbo e guardei a arma no fundo do guarda-roupa de meu pai e disse para mim mesmo: "NUNCA MAIS! Você tem o poder de tirar uma vida. Mas não pode fazê-la voltar". 


Meus pais se mudaram, a espingarda sumiu. Nunca mais a vi. A dor desse arrependimento eu nunca mais esqueci. Aí, meses atrás, andei vendo uma carabina para comprar. Puxa, eu tinha sido tão craque com uma dessas. Será que conseguiria acertar os mesmos tiros tão precisos como antigamente? Mas me lembrei do beija-flor. Saí da loja. Nunca mais, pensei de novo. Nunca mais. Mas achei uma ideia muito boa: trocar o chumbinho por uns feijões. Vou pensar nesse caso. Bom... a história é essa e infelizmente é verídica.
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Por: Leonidas Galvão Avellar Pires
Bancário e Jornalista - UBATUBA - SP



03 fevereiro 2017

Amizade - simples assim














Minha menina é admirável. Tenho nela o prêmio de sabê-la menos a garota que fui e mais a que queria ter sido.
Volta e meia às voltas com envoltas questões relativas à amizade, traz ares de conciliadora. Crê no diálogo como dissolução de mazelas.
Não sei de onde tirou essa ideia!!!
Brincadeiras à parte, outro dia eu fiz a ela o lendário discurso: a amizade é um “tipo” de amor.
– “Tipo” assim bem ciumento, né, mãe?!
Alguém discorda?
Tenho por história minha pra contar que cresci com uma amiga que gostava de falar: “nas brincadeiras é que se diz as maiores verdades.”.
            É bem verdade que, agora, a essa altura da vida, eu lhe pediria que conceituasse “verdade”...
            Todo mundo tem amigos. Não entrando igualmente no conceito de “amizade”, o que estou tentando dizer, tomo-o emprestado de Mario Quintana: “Não te abras com teu amigo/ Que ele um outro amigo tem/ E o amigo do teu amigo/ Possui amigos também”.
            Após podas e colheitas, umas tão frutíferas quanto as outras, penso que os amigos não o são nem se fazem por merecer pelo tanto de verdade que nos digam.
            Poder-se-ia dizer aqui que o importante, na verdade, sobre a verdade, é a verdade em que ela se funda... ou no quanto de prática a bela teoria em que ela se funda venha a existir. Mas, não estou aqui para, por minha vez, fundar meu discurso em pseudomoralismos.
            Amigos simplesmente acontecem. Desperdiça-se demasiado e raro tempo – que não voltará – tentando explicar o verdadeiramente inexplicável.
            No meu íntimo, sei que quando falo a esse respeito são duas ou três pessoas que me surgem à mente.
Se, por um lado, isso soa um tanto quanto solitário, por outro, a mim particularmente, comprova “tipo” que meio que entendi o significado da “coisa”. Meio.
            E tudo bem que “meio não é inteiro”, como “noventa e nove não é cem”, do jeito que ouço, brincando, dizerem por aí. Tudo bem, afinal, já é um baita começo!
Da mesma forma que “uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa”, do jeitinho que meu irmão, brincando, gosta de sempre dizer. Tudo bem – de verdade – pois, realmente: embora uma coisa se transforme, ainda que siga sendo uma coisa, será outra coisa, pois, será a coisa outra transformada! Simples assim.


Valquíria Gesqui Malagoli, escritora e poetisa, vmalagoli@uol.com.br / www.valquiriamalagoli.com.br

            

29 janeiro 2017

Um futuro além da imaginação


Abrindo mão das atividades que agregam valor ao petróleo e abandonando a produção de energia verde, a Petrobras que restar não terá a mínima chance de sobrevivência futura
Por Eugenio Miguel Mancini Scheleder

Em 1998, a Kodak tinha 170 mil funcionários e vendia 85% do papel fotográfico utilizado no mundo. Em apenas 3 anos, o seu modelo de negócio foi extinto e a empresa desapareceu.

O mesmo acontecerá com muitos negócios e indústrias nos próximos 10 anos e a maioria das pessoas nem vai se aperceber disso. As mudanças serão causadas pelo surgimento de novas tecnologias.

Conforme exposto na Singularity University Germany Summit, em abril deste ano, o futuro nos reserva surpresas além da imaginação.

A taxa de inovação é cada vez mais acelerada e as futuras transformações serão muito mais rápidas que as ocorridas no passado. Novos softwares vão impactar a maioria dos negócios e nenhuma área de atividade estará a salvo das mudanças que virão.

Algumas delas já estão acontecendo e sinalizam o que teremos pela frente. O UBER é apenas uma ferramenta de software e não possui um carro sequer, no entanto, constitui hoje a maior empresa de táxis do mundo. A Airbnb é o maior grupo hoteleiro do planeta, sem deter a propriedade de uma única unidade de hospedagem.

Nos EUA, jovens advogados não conseguem emprego. A plataforma tecnológica IBM Watson oferece aconselhamento jurídico básico em poucos segundos, com precisão maior que a obtida por profissionais da área.

Haverá 90% menos advogados no futuro e apenas os especialistas sobreviverão. Watson também orienta diagnósticos de câncer, com eficiência maior que a de enfermeiros humanos.

Em 10 anos, a impressora 3D de menor custo reduziu o preço de US$18.000 para US$400 e tornou-se 100 vezes mais rápida. Todas as grandes empresas de calçados já começaram a imprimir sapatos em 3D.

Até 2027, 10% de tudo o que for produzido será impresso em 3D. Nos próximos 20 anos, 70% dos empregos atuais vão desaparecer.

Em 2018, os primeiros carros autônomos estarão no mercado. Por volta de 2020, a indústria automobilística começará a ser desmobilizada porque as pessoas não necessitarão mais de carros próprios. Um aplicativo fará um veículo sem motorista busca-lo onde você estiver para leva-lo ao seu destino. Você não precisará estacionar, pagará apenas pela distância percorrida e poderá fazer outras tarefas durante o deslocamento.

As cidades serão muito diferentes, com 90% menos carros, e os estacionamentos serão transformados em parques. O mercado imobiliário também será afetado, pois, se as pessoas puderem trabalhar enquanto se deslocam, será possível viver em bairros mais distantes, melhores e mais baratos.

O número de acidentes será reduzido de 1/100 mil km para 1/10 milhões de km, salvando um milhão de vidas por ano, em todo o mundo. Com o prêmio 100 vezes menor, o negócio de seguro de carro será varrido do mercado.

Os fabricantes que insistirem na produção convencional de automóveis irão à falência, enquanto as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) estarão construindo computadores sobre rodas. Os carros elétricos vão dominar o mercado na próxima década.

A eletricidade vai se tornar incrivelmente barata e limpa. O preço da energia solar vai cair tanto que as empresas de carvão começarão a abandonar o mercado ao longo dos próximos 10 anos. No ano passado, o mundo já instalou mais energia solar do que à base de combustíveis fósseis. Com energia elétrica a baixo custo, a dessalinização tornará possível a obtenção de água abundante e barata.                      

No contexto deste futuro imaginário, os veículos serão movidos por eletricidade e a energia elétrica será produzida a partir de fontes não fósseis. A demanda por petróleo e gás natural cairá dramaticamente e será direcionada para fertilizantes, fármacos e produtos petroquímicos. Os países do Golfo serão os únicos fornecedores de petróleo no mercado mundial. Neste cenário ameaçador, as empresas de O&G que não se verticalizarem simplesmente desaparecerão.

No Brasil, o modelo de negócio desenhado para a Petrobras caminha no sentido oposto. Abrindo mão das atividades que agregam valor ao petróleo e abandonando a produção de energia verde, a Petrobras que restar não terá a mínima chance de sobrevivência futura. A conferir.
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(Publicado na revista Brasil e Energia Petróleo e Gás, edição de dez/2016).
Reflita sobre o seu presente e o seu futuro. Está preparado para mudanças tão radicais e abruptas?

"Nada é permanente, exceto a mudança". (Heráclito: 535 a.C - 475 a.C)

22 março 2016

Entre escombros... entre escolhas

ENTRE ESCOMBROS... ENTRE ESCOLHAS
Por: Alessandra Leles Rocha



Terrorismo - sm. Modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror. (Aurélio - Dicionário da Língua Portuguesa)

Lamentavelmente, acordamos com a notícia de mais um terrível atentado terrorista na Europa, dessa vez em Bruxelas, na Bélgica. Segundo a Agência de Imprensa France-Presse (AFP), “Pelo menos 34 pessoas morreram e mais de 150 ficaram feridas nas explosões que ocorreram nesta terça-feira no aeroporto de Zaventem, em Bruxelas, e na estação de metrô de Maalbeek, no centro da capital europeia”. Mas, apesar da comoção que as imagens e notícias nos causam é fundamental refletir seriamente sobre o que se esconde nas sombras do radicalismo intolerante disseminado pelo mundo.

De acordo com as palavras do filósofo e teórico político Jean-Jacques Rousseau, “Se a razão que faz o homem é o sentimento que o conduz”. Partindo dessa lógica, me parece muito difícil, então, crer que tamanha crueldade parta somente de fundamentos ideológicos arraigados e distorcidos. É preciso que tais doutrinas encontrem abrigo e amparo nas emoções e sentimentos humanos, de modo que haja uma frieza plena para não se envolver e, nem tampouco, pensar nos milhões de passantes ao redor. Não, não há ideias suficientemente grandiosas que sejam, em sã consciência, capazes de preterir a vida e o bem estar dos seres humanos; a não ser que, tudo isso, nos parecesse de fato sem a menor a importância.

Por excelência os viventes do planeta desenvolveram, cada um a sua forma, o seu instinto de sobrevivência para garantir a manutenção das espécies. Sendo assim, quando nos deparamos com o movimento contrário a esse princípio entre os humanos, nos deparamos com um fenômeno em que a exceção passa a se tornar regra e eleva os riscos em relação ao nosso futuro. A vida tem sido relegada mais e mais as últimas instâncias de prioridade, entre o TER e o SER, o primeiro é o que deve ser preservado; muito embora, o que vale o TER se não há o SER para desfrutá-lo? Entretanto, apesar disso, revire as páginas da história e veja quantos foram os que sucumbiram aos ditames do TER, as honras e as glórias do ouro e do poder.

Talvez a explicação desse comportamento esteja pautada em uma dose generosa de egoísmo a corroer a humanidade.  Deixamo-nos levar pelas palavras, pelos ídolos, porque nos é conveniente pensar sob uma ótica individual dos interesses, daquilo que se pode lucrar, mesmo que eventualmente prejudique o outro. É assim que muitos não conseguem enxergar as mazelas do mundo e se postam a margem, numa bolha de isolamento ideológico altamente resistente, a qual os permite cometer as piores e mais abomináveis atrocidades contra seus pares, sem lamentar ou sentir nenhum sentimento de culpa.

Não se consegue extinguir as diversas faces do terrorismo porque sempre há quem aplauda e reverencie tais práticas. As ideologias de extremo radicalismo exercem um fascínio sobre mentes egoisticamente vulneráveis; por isso, eles mantêm certo equilíbrio na rotatividade de adeptos para suas investidas, não lhes deixando faltar recursos de nenhuma natureza, especialmente, financeiros. Sim, porque as ideologias usam do dinheiro para manterem-se vivas, para persuadir novos seguidores, para apontar uma série de benefícios que só através dele é possível obterem em curto prazo. 

Dizia Martin Luther King que, “A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio”. Por pior que sejam as circunstâncias da vida pós-moderna, algo ela nos tem revelado em concordância com essas palavras: as máscaras estão pelo chão. Sim, o posicionamento das pessoas tem dito muito sobre elas, sobre o grau de envolvimento e sensibilização em relação aos sofrimentos e obstáculos a serem vencidos pela coletividade. Observando com atenção todos aqueles tidos como engajados e atuantes em favor do bem social, quantos realmente se mostram defensores dos fracos, dos oprimidos, dos escravizados? Por quais causas eles realmente militam? Será que estão preocupados com os milhões de desempregados, ou os que concorrem em verdadeira ‘roleta-russa’ por um leito de UTI nos hospitais públicos, ou os que não conseguem estudar pela ausência de transporte, ou... ou...? Será que estão na defesa da liberdade e demais garantias de direitos humanos?

É. Quem vê cara não vê coração e de repente se descobre o real tamanho dessa legião de seres desumanos pelo mundo. Anônimos e famosos que hasteiam suas ideologias com um orgulho feroz. Manifestam suas filosofias de botequim, sem nenhuma cerimônia. E no fim das contas, querem mais é que tudo se exploda bem longe do seu quintal de indiferença e alienação. São os donos da verdade; aliás, como se essa fosse passível de uma única definição. Tudo o que não sai de seus pontos de vista é rechaçado com veemência e desqualificado sem direito a contestação; seja na política, na economia, na religião, ou no futebol.

Portanto, os atos de terrorismo não estão presentes somente na Bélgica, ou na Europa. Eles estão aonde o ser humano está. O terror está no derramamento de sangue; mas, também, na omissão silenciosa. Ele está nas bombas que explodem em locais cotidianos; mas, também, nas palavras verbalizadas ou não dos meios de comunicação. Ele está na idolatria, na ignorância, na incapacidade de dialogar e de reconhecer os próprios erros; afinal, quem foi que disse que o ser humano é perfeito, hein? Temos que parar de relativizar a vida, estabelecendo quem pode viver quem pode morrer quem pode trabalhar quem pode ser feliz, quem... Nenhum fim justifica qualquer meio para alcançá-lo; então, quem escolhe o lado do terror, o escolhe por vontade própria.

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ALESSANDRA LELES ROCHA
Professora, Bióloga e Escritora
Uberlândia - MG
alessandralelesrocha@hotmail.com

01 fevereiro 2016

A conquista do poder e o valor da vida

A CONQUISTA DO PODER E O VALOR DA VIDA



por: Helmut Adolf  Mataré*
Médico e escritor 

Aspirar ao poder ou querer dominar é a extensão do instinto de auto-conservação.  Isto já se observa no comportamento dos cachorros. Eles não permitem que um cachorro estranho ou um gato seja introduzido no círculo da vida que lhes da subsistência. 

Possuir um poder é um fascínio. Um ditador, frequentemente, luta até a morte, para permanecer na situação de mando. Quais são os métodos, para se chegar ao poder? Numa tribo primitiva pode ser a força braçal ou guerreira que permite a ascensão ao poder.

No século passado foram os japoneses que dominavam grande parte da China com força militar. Após a conquista de uma cidade ou região, eles firmavam-se no poder mediante intimação. Com prisões e matanças  arbitrárias  eles mostravam aos  chineses  que  o poder dos ocupantes era ilimitado.

Nos tempos bíblicos, a atividade religiosa ou profética era a fonte do poder. Crenças alheias às do profeta eram severamente proibidas. “Não deixarás viva a bruxa!” Os antigos  astecas e incas tinham uma lei idêntica: pena de morte para a bruxa.

Na Europa medieval, uma coroação era um ato religioso. E, quem não acreditava  em Deus ou Cristo, foi condenado à morte. Assim, a igreja firmava-se no poder. Isto comprova que na idade média o mais alto valor não era a vida, mas a submissão aos representantes da religião e aos dogmas da igreja. 

O preceito da Bíblia que um homem que mata deve perder sua vida, era razoável, porque se aplicava contra os que agiam por motivo torpe. Hoje, ao contrário, estamos no dilema perante os assassinos sadistas ou terroristas, que vivem nas prisões ou que estão em liberdade, porque eles possuem o mais alto valor que nós conhecemos: a vida humana. 

Numa sociedade democrática é a retórica e a capacidade de hipnotizar as massas  com argumentos atraentes ou lisonjeiros, que leva ao poder. Quando proferidas com impecável pronúncia, estas promessas têm força hipnotizante, notadamente, se visam riqueza, segurança ou glória. 

Trezentos anos atrás, alguns fundadores de religiões novas utilizavam-se de um recurso muito primitivo, mas eficiente para ampliar o círculo de crentes: eles prometiam devassidão sexual. Assim fizeram os anabatistas na Alemanha, no início de sua atividade.

Os políticos costumam apelar a um grande número de emoções. Ora são nobres ideais, ora sentimentos de amor ou compaixão, ora indignação contra injustiças, ora o contrário: a postulação de privilégios com os quais, sorrateiramente,  prometem-se grandes lucros a determinada classe ou agremiação partidária. Ora eles advertem um planejado ou iminente terror, contra o qual advogam ser indispensável uma severa disciplina.

Entre outros métodos de chegar ao poder, destaca-se ainda a incitação à histeria ou à  autopiedade. Os comunistas usaram este método. Também nos tempos atuais há pregadores que afirmam que o Cristo crucificado é o símbolo da classe operária torturada e abusada. Assim, eles colocam-se na vanguarda, se, por acaso, eclodir uma revolta dos operários contra as outras classes.

Na revolução francesa, certos advogados denunciavam o rei de ser um acaparador, o que era mentira. Acusavam-no também de ser um proxeneta, o que, em parte, era verdade. O rei Luiz XVI rebatia estas acusações com grande habilidade, durante três anos, mas, sua defesa minguou, quando foram descobertos os documentos que comprovavam que ele estava conspirando com os austríacos contra a França. 

Também Cristóvão Colombo entendia de demagogia. Sabendo que, em breve,  ocorreria um eclipse da lua, ele aproveitou-se da credulidade e religiosidade dos índios, para fazer-lhes crer que ele estivesse familiarizado com o estado de ânimo do Deus da Lua. Ele atribuía a visível diminuição da luminosidade da lua à tristeza do Deus da Lua, por causa da desobediência dos índios a suas ordens de juntar o ouro para ele. 

Um semelhante ardil foi usado pelos evangelistas. Eles deram a entender que Cristo não teria sido condenado à morte pelos romanos, se os judeus de Jerusalém não tivessem insistido na crucificação. Com esta acusação eles criaram uma consciência de culpa na mente do simples povo de Jerusalém, culpa esta que eles, como arautos de Javé, relacionavam ao merecido castigo. Pois, os judeus foram cruelmente expulsos da Palestina, poucos anos depois do martírio e Gólgata.

Hoje estamos assistindo, no Brasil, a uma estranha distorção de valores morais. A propaganda enfoca a necessidade de combater a violência, como se a violência fosse sempre um crime, e como se os crimes insidiosos não representassem nenhum perigo para a sociedade. Esta distorção é evidentemente uma propaganda preventiva para uma grande parte dos políticos que pertencem ao mundo do crime não violento, chamado corrupção. Seria terrível para eles, se o povo brasileiro hoje reagisse contra a corrupção com  violência, de forma semelhante como fez o povo francês mais de duzentos anos atrás. 

Se estes políticos que se confessam ser irrestritamente a favor da vida, fossem honestos, eles cuidariam em primeiro lugar da eliminação dos grandes criminosos que, mesmo nas prisões, continuam a comandar matanças, terror e intoxicações. Se os políticos amassem o povo, eles seguiriam a Bíblia e mandariam verter o sangue daquele que verteu sangue alheio.

Tudo indica que os maometanos perceberam a hipocrisia que tomou conta do mundo ocidental. Eles iludem-nos, mostrando que eles conhecem um número maior de valores que nós. E com muito orgulho lançam mão de vidas humanas e de suicídios, para cultivar seus ideais.

Temos hoje quatro ideologias no Brasil que restringem o livre fluxo do pensamento sobre a vida humana. A primeira provém do poderoso mundo do crime, que deseja proteger os corruptos. Ela invoca o direito à vida para todos, e a proibição de toda violência. Essa é a orientação de nosso governo. 

A segunda doutrina é aquela que combatia antigamente a escravatura. Ela ressalta a igualdade e o direito à autodeterminação dos homens. Essa ideologia abolicionista, se bem que perdeu em importância, ainda está viva no Brasil e distorce a noção do direito penal e cível.

A terceira pedra de toque é o repúdio gerado pelas notícias de matanças em massa, chamadas genocídios, ocorridos na União Soviética, na Alemanha nazista e na China comunista. Nestes países, os políticos determinavam, se uma vida era útil ou não. A reprovação destas matanças é tão emocionante, que paralisa o raciocínio sobre a pena máxima, sobre a mortalidade infantil e sobre a limitação dos nacituros. A maioria das pessoas que se orgulham de condenar solenemente o holocausto e as limpezas étnicas e políticas, perdem de vista o problema crucial de nosso tempo, que é o aumento da humanidade, que se transformou numa praga de carne viva.

A quarta perturbação do pensamento filosófico provém do incrível avanço da medicina, mormente da medicina social e da popularização da medicina individual, que antigamente era uma arte secreta, e hoje é acessível a todo cidadão. Os políticos  aproveitaram este progresso abalroante, para fazer do tratamento médico um direito, que a constituição e a lei chamam impropriamente: o direito à saúde. 

Verdade é que a lei suprema da profissão médica é a conservação da vida humana. Mas esta ética, própria da classe médica, não pode ser estendida aos três poderes que regem um país. Outros profissionais, por exemplo, um fazendeiro, um cientista, um artista, um capitão de belonave, um astronauta, um explorador, um inventor têm ideais totalmente diferentes, e, evidentemente, os celerados e facínoras também não pensam sobre a vida como um médico. 

Se os poderes públicos adotam cega e estupidamente a ética da classe médica, eles cometem um crime avassalador contra a Mãe Terra e, com isso também contra a país ao qual deveriam dedicar-se.

Pois o globo terrestre que tem treze mil quilômetros de diâmetro, possui vida em terra firme somente até a profundidade de noventa e cinco centímetros, exceto nos desertos. Esta tênue e delicada camada viva deveria ser protegida em primeiro lugar.

A vida da Mãe Terra deveria figurar como valor supremo e como critério principal  de toda jurisdição e ordem pública. Somente assim haveria esperança de evitar-se uma catástrofe total.  
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* Helmut Adolf Mataré. Nasceu na Alemanha (Aachen) em 24.12.1917 e faleceu em janeiro de 2016. Estudou medicina (sua especialidade era a radiologia) durante a guerra e participou de diversas campanhas. Foi médico de um batalhão de infantaria na frente contra a União Soviética, época em que ele narrou essa experiência  no livro "A Guerra nos Pântanos". Estudou no Canadá francês, e nos anos 50 veio radicar-se no Brasil, vivendo nas cidades de São Paulo e Bertioga. Foi sócio-fundador da Sobrames-SP (1988), tendo participado na diretoria da entidade em diversas gestões. Autor dos livros "Memórias de um Médico na Segunda Guerra Mundial"  e "A Bíblia tão desconhecida". Foi membro titular da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
** Este texto foi escrito em 1999. 

23 janeiro 2016

Considerações sobre a liberdade de expressão e o islamismo

CONSIDERAÇÕES SOBRE 
A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O ISLAMISMO [1]


 por: Helio Begliomini
Médico e escritor - São Paulo - SP

O homem, esse ser tão débil, recebeu da natureza duas coisas que
deveriam fazer dele o mais forte dos animais: O raciocínio e a sociabilidade.
Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), advogado, filósofo e escritor romano.

Li com interesse e atenção o artigo “Limites da Liberdade de Expressão” do sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi, representante da Ordem Sufi Halveti Jerrahi no Brasil, publicado na página 20 da Revista Família Cristã – Ano 81 – no 951, março de 2015.

O pano de fundo da matéria foi motivado pelas charges – quaisquer que sejam –, alusivas ao profeta árabe Muḥammad ou Mohammad ou ainda Moḥammed, mais conhedido entre nós por Maomé (570-632 d.C.), ou aos valores islâmicos, que se tem tornado intoleráveis aos seus representantes fundamentalistas. Ações violentas materializaram-se com forte repercussão mundial, por ocasião do atentado à sede parisiense do jornal satírico francês Charlie Hebdo, em 7 de janeiro de 2015, causando mais de 10 mortos.

Não há dúvida de que a liberdade de expressão deva ter limites, os quais devem sempre se situar respeitosamente na fronteira da mesma liberdade de expressão de outrem, de uma grei, instituição, valores ou crença.

Contudo, o que não ficou claro pelo sheikh Muhammad al-Jerrahi é que atitudes ofensivas ou injúrias sofridas devam ser questionadas; civilizadamente apuradas e avaliadas pela Justiça e não pelas próprias mãos. Ao contrário, ele parece implicitamente justificar e até estimular subliminarmente ações desse tipo ao referir: “Escarnecer, mesmo a própria pessoa, sua raça, sua cultura, seus pensamentos ou suas crenças, ao diminuir o outro, estigmatiza, isola e exclui de uma convivência saudável no meio social, justificando agressões (grifo nosso), chegando até a negar-lhe a própria existência como indivíduo ou como nação”. E aqui paira uma dubiedade: A quem se chega a negar a existência como indivíduo ou nação? – Ao que é injuriado ou ao autor das ofensas?!

Assim, não se tem visto por parte dos líderes religiosos e representantes governamentais de países mulçumanos o combate explícito, efetivo e veemente de radicais encastelados em grupos bárbaros – extremamente belicosos e agressivos – como Al-Qaeda[2], Talibã,[3] Boko Haram[4] e Estado Islâmico. Essa omissão pode sugerir que alguns deles ficam aliviados ou até felizes intimamente, quando ocorrem baixas de “infiéis” ou de agressores à fé com a selvageria produzida pelos radicais, comportando-se tais quais lobos disfarçados de cordeiros. E neste contexto bem se aplica as palavras de Martin Luther King (1929-1969), prêmio Nobel da Paz em 1964: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons”.

Ainda em seu artigo, em referência aos preceitos de Maomé, sheikh Muhammad al-Jerrahi assinala: “O prófeta (saws[5]) nos ensinou e orientou a confiar plenamente na Justiça Infinita de Deus, que nesta e na Outra Vida, sempre faz o acerto de contas final. Portanto, é fundamental cuidarmos, para, perante Ele (O Altíssimo), não sermos qualificados como injustos ou criminosos”. E complementa: “Também nos ensinou, conforme consta no Sagrado Corão, que não pode haver coação ou constrangimento em religião, e cada ser humano deve ter o livre direito de escolher sua crença. Na religião islâmica, portanto, o direito à liberdade é fundamental: a liberdade de crença, de pensamento e de expressão”.

Ora, mediante estas palavras tão belas e sensatas – dentro do contexto da “liberdade de expressão” – sem querer defender, abonar ou estimular, como entender em alguns países muçulmanos o enforcamento e a humilhação pelo apedrejamento até a morte, respectivamente de homossexuais e de mulheres que tenham cometido adultério?!

Como entender a “liberdade de crença” no islamismo quando existem países nos quais é restringido, coibido e até proibido a prática de outras religiões além da muçulmana?! Onde se entende a “liberdade de crença” no islamismo quando se constata em diversas nações que, muçulmanos convertidos a outras crenças, tornam-se juntamente com suas famílias discriminados, perseguidos e até mortos, caso não mudem de cidade, estado ou país?! Como se entende a “liberdade de crença, de pensamento e de expressão” no islamismo quando a escolha para o matrimônio não é livre, mas uma oferta, arranjo ou imposição dos pais, particularmente do lado da mulher?!

Neste quesito, conheci na minha cidade de São Paulo, uma jovem muçulmana que veio do interior do Líbano – um dos países do Oriente mais abertos à liberdade de expressão! –, que foi dada como esposa a um conterrâneo que aqui vivia. Essa jovem é parenta de outra muçulmana, aqui radicada há mais tempo e já ocidentalizada, mas sem perder sua origem e fé, que se permite até praticar natação em academia juntamente com alunos masculinos. Apesar das aparências de emancipação, ela expressou algumas vezes à minha esposa que suas filhas só poderiam se casar com mulçumanos e de seu grupo – “druso[6]”, pois caso contrário, seriam fria e sumariamente deserdadas e não mais consideradas membros de sua família, de sua afetividade e de seu convívio! Se isso pode acontecer com tais imigrantes em São Paulo, a maior metrópole da América do Sul, torna-se temeroso imaginar o que poderia ocorrer em sua cidade ou aldeia de origem!

Atendi, em meu consultório, um adulto jovem de aproximadamente 35 anos, que de pastor batista havia se convertido há uns três anos ao islamismo. Após uma amistosa conversa, depreendi e lhe expressei como muita surpresa, como alguém que presumivelmente havia conhecido e vivido as maravilhas das virtudes cristãs,  pudesse se alinhar na defesa intransigente da fé islâmica, manifestando laivos de belicosidade com outras crenças, menosprezando até a fé que tivera! Ademais, foi igualmente surpreendente observar como agora considerava a mulher, um ser ao menos num patamar mais baixo que o homem.

Outro paciente meu, também muçulmano e contando com uns 35 anos, mais liberal e falando-me da fé muçulmana que professava, disse-me que se um homem ao se casar, descobre que sua mulher não era virgem, teria todo o direito pela religião de dela se separar. Falando-lhe da equiparação dos gêneros em sua crença, indaguei-lhe se ocorresse o contrário – a mulher descobrisse que seu marido ao casar não era mais casto – ela teria o mesmo direito religioso de dele se separar? Ele, surpreso com minha pergunta e sem jeito, percebera a inferioridade dissimulada que a mulher era tida no islamismo, pois, a contragosto me confirmou que esse preceito só valia para o homem!...
Contudo, este é um pormenor no que concerne ao tratamento secundário, terciário ou quaternário que se dá à mulher em vários países islâmicos, para não dizer da barbárie impetrada por radicais na mutilação de parte do genital feminino externo; do sequestro de mulheres no Iraque pelo Estado Islâmico (agosto de 2014) ou na Nigéria pelo grupo Boko Haram (maio de 2014) para servirem de escravas sexuais; da proibição ao trabalho fora do lar; ou mesmo de ter acesso ao ensino, como ficou conhecido o emblemático caso de Malala Yousafzai, paquistanesa de 14 anos que, em outubro de 2012, foi alvo de um atentado do Talibã com um tiro no pescoço e outro na cabeça, por defender a educação de meninas. A fim de que não morresse, ela teve que se mudar de país e aí, com certeza, não somente por falta de “liberdade de expressão”, como também por insegurança e pela ausência dos mais básicos e elementares direitos humanos.

Por fim deve-se salientar a bestialidade dos fundamentalistas talibãs na destruição das imagens de Buda no Vale de Bamiyan, a 240 km de Cabul, no Afeganistão, em 2001. As duas estátuas mais proeminentes tinham 55 e 38 metros de altura, e  mais de 1500 anos de existência! Em 2015 o mundo novamente ficou estarrecido com a destruição jihadista[7] por asseclas do Estado Islâmico de estátuas e artefatos milenares (algumas do século VII a.C.!) no Museu Ninevah, em Mossul, no Iraque. Nesses e noutros insensatos, inqualificáveis e injustificáveis crimes lesa-humanidade, cometidos em nome da fé islâmica, perdeu-se parte da história da civilização!!!

Nesses breves contextos deve-se perguntar: quantos “islamismos” existem? Será que sua doutrina é genuinamente compreendida? Será que é compatível com o conhecimento, a ciência e a sociedade atual que deixou a pré-história há milênios?

Com certeza, constata-se hodiernamente que atos bárbaros, assassinatos injustificáveis e cruelíssimos; homens, mulheres e crianças-bomba; destruições de patrimônios da humanidade são cometidos em nome de sectários da crença islâmica, fatos horrendos e chocantes não vistos em outras religiões. Nesse cenário tétrico e apavorante são bem-vindas as palavras de Flora Tristan (1803-1844), escritora, pensadora, socialista e feminista francesa: “Duas coisas me surpreendem: A inteligência dos animais e a bestialidade dos homens”.
Ademais, há décadas muçulmanos tem paulatinamente emigrado para diversos países da Europa e da América onde se encontra realmente a “liberdade de expressão”, pois na imensa maioria desses países existe estado democrático de direito, e não tiranias, anarquias, transmissão familiar de poder, califados... Nesses países do Ocidente os muçulmanos se radicam; trabalham e prosperam; multiplicam-se rapidamente; e silenciosa e camufladamente conquistam e convertem neoadeptos, premissas essas não vistas com as mesmas cores, tons e intensidades na maior parte de seus países de origem, quer sejam da África quer do Oriente Médio.

Portanto, entre o Oriente muçulmano e o Ocidente cristão, a “liberdade de crença, de pensamento e de expressão” salientada pelo sheikh Muhammad Ragip Al-Jerrahi possui visivelmente dois pesos e duas medidas, infelizmente!
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 [1] Este trabalho, sob pseudônimo, recebeu o segundo lugar em ensaio no concurso literário anual da Academia Brasileira de Médicos Escritores – Abrames, recebido em sessão de gala durante a Semana da Abrames, realizada de 19 a 21 de novembro de 2015, na cidade do Rio de Janeiro.
 [2] Al-Qaeda: “A Base”, em árabe.
 [3] Talibã ou também transliterado Taliban, Taleban ou talebã, em árabe, significa “estudantes”.
 [4] Boko Haram significa “a educação ocidental é proibida”.
[5] Saws: Entre os religiosos muçulmanos as citações ao Profeta Muhammad são seguidas desta expressão – “saws” – cujo significado é “que a paz e as bênçãos de Deus estejam sobre ele”.
 [6] Os “drusos”, embora não sejam considerados muçulmanos por muitos adeptos dessa religião, é uma facção religiosa autônoma que segue os preceitos do islamismo. Falam o idioma  árabe e utilizam de seus mesmos costumes. Compreendendo cerca de um milhão de adeptos, residem mormente no Oriente Médio – Líbano, Israel, Síria, Turquia e Jordânia –, além de comunidades expatriadas nos Estados Unidos da América, Canadá, América Latina, Austrália e Europa.
[7] Jihadistas: adeptos da Jihad – guerra santa muçulmana; luta armada contra os infiéis e inimigos do Islã.

O PLANETA DOS MACRÓBIOS

Por Francisco José Soares Torres Médico - Crateús - CE centromedicodecrateus@gmail.com "Para consolo ger...